O escritor brasileiro Pedro Bandeira, criou uma estória que se refere a um pardal, que se sentia diminuído perto de outros pássaros, vistosos e canoros. Voava sobre as árvores e se escondia envergonhado, sem perceber que espalhava sementes pelo caminho. Na vida também é dessa forma. Enquanto milhares de pássaros apenas cantam e se exibem, centenas de pardais semeiam.
É bem verdade que, aos olhos de muitos, os pardais são inexpressivos, assim como as pessoas de pouca cultura e instrução. Mas a linguagem do amor é universal e, tantas vezes, desproporcional, já que pequenas sementes podem produzir grandes florestas.
Encontramos no caminho da vida, muitas pessoas no abismo, provocado pela indiferença de seus familiares e supostos amigos. Sem falar da sociedade que massacra, quanto as pessoas não se adequam ao sistema de uma estrutura essencialmente consumista. A sensação é a de que são menores, inferiores. Causada pela fraqueza daqueles que sabem a arte de machucar para manter seu orgulho intacto. É o preço de uma geração que se esvazia interiormente e se infla na aparência, na imagem e na insensibilidade. O abismo se torna maior para aqueles que já perderam as referências, os valores, o sentido do próprio viver.
Nossa missão é semear, onde estivermos. Não precisamos nos esconder envergonhados do que somos. O Criador nos conhece e nos ama como somos: “Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti”(Is 43,4).
Nosso peito se enche de esperança, quando a Palavra penetra nossa alma e os rumores são afastados pela sua luz. Rumores são sons que provém da insensatez dos perversos e da malícia dos enganadores.
Na difícil tarefa de sermos e semearmos trigo, devemos estar atentos e vigilantes porque o joio está bem mais perto do que pensamos. O vigor, a esperança e a disponibilidade da alma se medirá pela simplicidade do coração que respeita o ritmo de cada um. Que chama para si os outros com vínculos de amor.
A esperança existirá sempre porque Deus nos visitou em seu Filho Jesus e ao partir não quis deixar-nos órfãos(Jo14,18) enviou-nos o Paráclito , que permanecerá conosco para sempre. Por isso nossa esperança não se funda no futuro a vir, mas na certeza presente revelada que se amplia para além.
A esperança habita em nós sob forma de saudade de Deus. É o grande retorno, o êxodo em que vivemos. Deus é conosco, pisa nosso chão e garante-nos a passagem pelo mar. Mar vermelho do sangue precioso de Cristo, que na Cruz, única esperança nos redimiu e pagou nosso resgate.
Não há abismo que queira nos deter, somos do alto. A vestimenta foi re-feita, não há razão para nos escondermos, amedrontados ou confusos pelo pecado, como Adão no livro do Gênesis. Levante a cabeça, “ firme seus pés cansados e joelhos enfraquecidos”, retome seu caminho e não se deixe abalar. “Quando você atravessar a água, eu estarei com você e os rios não o afogarão: quando você passar pelo fogo, não se queimará e a chama não o alcançará pois eu sou Javé seu Deus..para pagar a sua liberdade..você é precioso para mim, eu o amo..não tenha medo pois eu estou com você...para a minha glória eu os criei, eu os formei, eu os fiz”(Is 43).
Talvez pudéssemos concluir que quem na verdade se encontra no abismo é aquele pássaro que apenas canta ou se exibe, mas estaríamos nos julgando melhores e deixaríamos de ser simples pardais.
Semeadores de esperança: não se cansem! A esperança se adquire. “Chega-se à esperança através da verdade, pagando o preço de repetidos esforços e de uma longa paciência. Para encontrar a esperança, é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a aurora.”
Côn. Vonilton Augusto Ferreira